sábado, 5 de agosto de 2017

As duas primeiras semanas como professora pública e os conselhos da Rainha Branca

Educar nunca é fácil. Ajudar um ser humano a construir suas estrategias para ser, estar e enfrentar o mundo não é um exercício fácil em nenhum contexto. Por quê seria fácil em uma escola cujo público atendido é composto maioritariamente por crianças em estado de fragilidade social?


Nunca me senti tão Alice na vida. Me sinto andando no país dos espelhos onde todas as coisas são o contrário do que deviam ser e o perigo está espreitando a cada porta. Se vacilar entro na floresta e esqueço meu nome, se brincar tropeço e me perco e quando estou diante de meus alunos me sinto diante de um "frumioso Capturandam" procurando quase em prantos pela "espada Vorpeira".

Chegar na segunda metade do ano em uma escola que fica há dois ônibus e um metro de distancia na qual tudo falta, até água para higiene pessoal, está se tornando um dos grandes desafios da minha vida adulta. Gostaria de ser uma pessoa mais leve para enfrentar esse momento, de levar na boa como se tudo fosse nada. Gostaria mesmo, mas não consigo! Sinto o peso desse desafio, a fragilidade de minha posição e  a responsabilidade que foi atribuída a mim.


Há professoras e professores capazes de impor sua presença aos adolescentes com um olhar, um psiu, um pé na sala e nada mais. Não sei como se faz isso. Também não gosto de jogos de medo e terror, não sei o que significa "Botar Moral!". As vezes tenho a impressão que as crianças e adolescentes adoram autoritarismo, gritos e uma pitada de agressão. Esperam ser dominadas pela força do adulto.

Dominação é um jogo do qual não gosto de participar. Não sei dominar e nem ser dominada! Gosto de construir cumplicidades e vínculos afetivos. Essas coisas não brotam como cogumelos pós dia de chuva, elas precisam ser construídas com tempo, trabalho, acertos e falhas. Tenho me angustiado muito com as falhas.


Possivelmente minha situação como professora novata para a qual os alunos torcem o nariz vai mudar e as coisas vão melhorar. Não é a primeira vez que começo em uma escola nova com turmas difíceis. Definitivamente estou onde quero estar, no entanto, não tem sido fácil. Tenho a impressão de está diariamente vivendo um tipo diferente e cada vez mais humilhante de "7x1".


Contudo, não há apenas dores. Tenho, assim como a Alice do Lewis Carroll, encontrado amigas e amigos. Existem pessoas solidárias dispostas a ajudar a gerir e solucionar o caos. As vezes elas parecem imaginação, mas diariamente as encontro e, na convivência com elas, me pego lembrando nos conselhos da Rainha Branca de "Através do Espelho".

Quando penso em chorar:
"Oh, não fique assim!"... "Considere a menina grande que você é. Considere a longa distância que percorreu hoje. Considere que horas são. Considere qualquer coisa, mas não chore." (pág. 227)
E quando alguma situação parece impossível:
"Quando eu era da sua idade, sempre praticava meia hora por dia. Ora algumas vezes cheguei a acreditar em até seis coisas impossíveis antes do café da manhã..." (pág. 227/228)
As fotos do post são pedaços das paisagens do meu caminho de casa ao trabalho e vice-versa.

6 comentários:

  1. Triste esse sentir... Mas tão real tendo em vista nossas escolas e educação...Sem investimentos, falta tuuuuuuuudo...Pena! E a sensação de impotência acontece! Lindas fotos! bjs, tudo de bom,chica

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  2. realmente não é fácil lecionar para pessoas que não tem o básico. fica difícil compreender as turbulências internas e a falta de raciocínio lógico. acho q o normal é não ficar indiferente. é q com tanta adversidade, muitas pessoas preferem não enxergar para não sofrer, criam uma armadura de proteção. mas particularmente como vc tb não consigo. adolescentes de regiões de conflitos só compreendem mesmo o discurso do medo e da violência. mas tb não gosto de usar dessas ferramentas só pq eles entendem. quando trabalhei para empresas de rh aprendi que o novo sempre sofre resistência. um funcionário novo sempre é visto com desconfiança. e não falo nem de novo de idade. aquele que chega por último. por isso sempre aconselham observar mais e esperar a resistência diminuir. se cuide. beijos, pedrita

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  3. Pandora, eu imagino como é complicado.
    Mas penso que Deus nos planta onde precisamos florescer. E florescer deve ser doído .. lindo mas dói.
    Seus alunos talvez ainda não saibam mas são sortudos por terem você. Você vai florir isso aí, tô cera disso.
    beijos

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  4. Pandora minha sempre doce amiga, a vida incansalvemente nos traz novos ensinamentos e essas mudanças só servem para ver o quanto podemos ser melhores a cada dia.
    "O saber a gente aprende com os mestres e os livros. A sabedoria se aprende é com a vida e com os humildes." Como sempre Cora Coralina tem uma frase certa para o momento certo.
    Uma ótima semana!
    Beijinhos
    https://saletadeleitura.blogspot.com.br/

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  5. Minha mãe sempre disse que não se chega numa turma mostrando os dentes. É importante a gente diferenciar autoritarismo de autoridade. Mostrar autoridade é importante para todos os envolvidos, é uma forma de mostrar que há limites e que respeita-los é uma forma de respeitar os direitos de cada um. Todo início é ruim e as crianças sempre estão prontas a nos testar, nos resta enfrentar isso. Exigir que respeitem a tua autoridade não te torna autoritária e também não impede uma relação de afeto, muito antes o contrário, já que vai preparar os alunos para as limitações do mundo, onde nosso direito termina quando inicia o do outro.

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  6. Olá, Pandora.
    Só me resta torcer para que você consiga seguir em frente e não desista. Vendo a situação de longe eu já acho muito dificil, imagino vivenciar isso todo dia. Oro para que você tenha forças porque você vai fazer a diferença na vida dessas crianças, eu acredito.

    Prefácio

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