domingo, 13 de agosto de 2017

As pequenas virtudes [Resenha Literária]



"As pequenas virtudes" foi minha primeira experiencia com Natalia Ginzburg e preciso confessar: ao longo da leitura me peguei varias vezes absurdada com a forma cadenciada e despretensiosa que ela constrói sua narrativa até chegar, quando menos esperarmos, ao ponto de arrebatar e tirar a pessoa da orbita.

O livro é composto de um apanhado de pequenos textos escritos por ela entre os anos finais da Segunda Grande Guerra Mundial e o Pós-Guerra. Nesses textos ela conta de sua dor, perdas, incertezas, nostalgia, saudades, maternidade e angustia pelo futuro de seus filhos. Reafirmando meu encatamento com a autora, é nada menos que maravilhoso se pegar lendo um texto tão enxuto, elegante e bem escrito.

Por ser judia ela foi perseguida pelo governo fascista italiano durante a guerra, sofreu com o exílio em uma cidade do interior, perdeu o primeiro marido, passou um tempo na Inglaterra sentido o peso de ser estrangeira, casou novamente, foi mãe de seus filhos e escreveu, escreveu e escreveu... E é maravilhoso ler esses escritos, pois depois da leitura eles ficam conosco. Um ano depois de ter lido pela primeira vez "As pequenas virtudes" ainda me pego pensando nas coisas que li nele e o quanto elas fazem sentido.

De todos os textos o meu preferido é “Inverno em Abruzzo”, nele ela conta sobre o tempo que passou em uma cidade mais ou menos isolada com seu primeiro marido e seus filhos. Gosto desse texto em especial pela forma como em seu desfecho a Natalia ponderou sobre sonhos, felicidade e perda de um jeito doloroso e inesperado.
"Há certa uniformidade monótona nos destinos dos homens. Nossa existência se desenvolve seguindo leis antigas e imutáveis, segundo uma cadência própria, uniforme e antigo. Os sonhos nunca se realizam, e assim que os vemos em frangalhos compreendemos subitamente que as alegrias maiores de nossa vida estão fora da realidade. Assim que os vemos em pedaços, nos consumimos de saudade pelo tempo em que ferviam em nós.Nossa sorte transcorre nessa alternância de esperanças e nostalgias.
Meu marido morreu em Roma, nas prisões de Regina Coeli, poucos meses depois de termos deixado o vilarejo. Diante do horror de sua morte solitária, diante das angustiantes vacilações que a antecederam, eu me pergunto se isso aconteceu a nós, a nós, que comprávamos as laranjas de Giró e íamos passear na neve. Na época eu tinha fé num futuro fácil e feliz, rico de desejos satisfeitos, de experiências e de conquistas em comum. Mas aquele era o tempo melhor da minha vida, e só agora, que me escapou para sempre, só agora eu sei."(pg. 19)
Esse livro revolucionou minha visão a respeito da família Ginzburg. Sendo historiadora de profissão conheço o sobrenome, Carlo Ginzburg é o autor de “O queijo e os vermes” e “Mitos, Emblemas e Sinais”, dois livros fundamentais para todo historiador contemporâneo. Quando vi Natalia Ginzburg, pensei: “Olha a mãe do Carlo!” e comprei o livro. Agora, depois de ter lido ela, quando olhar para os livros do Carlo, penso: “Olha o filho da Natalia!”.

A edição da Cosac Naify é linda, pequena e graciosa. Conta com um posfácio altamente explicativo de Cesare Garboli no qual se explica vários detalhes sobre a vida da italiana, de sua prosa e tudo o mais.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Vai ver em outra vida fui um girassol...

"Vai ver em outra vida fui um girassol..."
Me ocorreu esse pensamente hoje de manhã durante o caminho do trabalho quando, propositalmente, me sentei no lado do sol para ver e sentir seu calor e luz se espalhando pela cidade.

A sensação do sol da manhã invadindo a cidade enquanto a lua ainda ocupa lugar no céu, esse espetáculo de ver a luz solar atravessando vidros de ônibus e metrôs, tocando os corpos, queimando o rosto é a minha mais recente descoberta. A dádiva dessa luz e calor específicos é distribuída apenas entre os madrugadores. No espaço entre os trópicos de Câncer e Capricórnio as sete da manhã já é tarde demais para senti-la.

Outra dadiva, e essa eu conheço de longa data, é a luz e o calor do entardecer. Para mim, o entardecer é a hora mais magica do dia. O sol se despede daqui enquanto se apresenta logo ali, do outro lado do mundo, e no processo distribui pelo céu azul mil tons vibrantes de vermelho. Cada entardecer é um espetáculo diferente.

O mais impressionante por do sol já testemunhado por mim aconteceu em Teresina, foi o maior e mais significativo prêmio por suportar o calor causticante do Piauí, permanece sendo inesquecível. Porém, o de Recife é o mais familiar, tem qualquer coisa de lar nele.


O por do Sol de Recife banha a mim e minha mitologia. Toda minha vida escolar ocorreu a tarde, trabalho há anos no período da tarde, assim ele é sinônimo de volta ao lar. Enquanto o sol se põe eu largo as roupas e armaduras de enfrentar a vida e me entrego ao devaneio.

Quando me é possível a escolha, me viro para o entardecer e sinto essa cor invadir meus olhos, o calor preenche meu corpo inteiro. Se, por algum milagre, ou inspiração divina, tocar em algum radio a "Ave Maria" de Franz Schubert me transforo toda em girassol e vou para em um campo infinito.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Alí-Babá e os 40 Ladrões [Literatura Infantil]


Quando encontrei a versão infantil da história de "Alí-Babá e os 40 ladrões" no Sebo me senti diante de uma oportunidade única. O livro estava barato (R$ 2,00 golpinhos), é grande, bem ilustrado e narra um conto árabe possível de ser utilizado tanto em contação de história para crianças quanto em aulas de história sobre o mundo árabe no século dez.

Nele se conta a história de como um homem pobre se depara com um bando formado de 40 ladrões indo de encontro a uma montanha. Quando o lide deles diz "Abre-te Sésamo!" a montanha se abre revelando ser o lugar maravilhoso no qual os bandidos escondem sua fortuna. Quando o bando de ladrões vai embora e o astucioso Alí-Babá escuta o chefe deles dizendo "Fecha-te Sésamo!" vai até a montanha e pega parte da riqueza para si dando inicio a grande aventura de sua vida.


Com a fortuna recém adquirida Alí-Babá se torna um comerciante próspero, mas também atrai atenções indesejadas. Ele vai precisar com inveja, malicia e tramoias contando com sua incrível sorte e com o apoio de sua leal e brilhante serva Morgiana.

A história de Alí-Babá integra o conjunto de  histórias contadas no "Livro das mil e uma noites" e originalmente não é destinada a um publico infantil ou adolescente, mas a adaptação da Berimbau é bem suavizada e contém ilustrações lindas e instigantes para a imaginação. Em linhas gerais, conserva o aspecto urbano da história, deixa perceptível o valor do capital financeiro e do comercio no Mundo Islâmico, destaca a atuação de Morgiana e não exclui as mortes ocorridas na história. 


O "Livro das 1001 Noites" do qual a história do Alí-Babá foi tirada começou a circular no Mundo Árabe a partir do século IX tomando a forma que conhecemos por volta do século XIII, justamente o período que tenho trabalhado com os sétimos anos, por isso, acabei levando o livro para a sala de aula e propus um exercício de analise do texto.


Tenho consciência de o quanto preciso avançar com meus alunos, temos muito a aprender e a ensinar uns aos outros. Mas, por hora, gostaria de registrar e compartilhar a felicidade de ter vivido uma aula de história bem boa.

domingo, 6 de agosto de 2017

The Wicked + The Divine: A Lei de Faust [HQs]


Não é novidade o quanto o tema deuses, divindades e milagres causam fascínio e encantamento. O "Pensamento Mitológico" foi a primeira forma de explicação para a realidade criada pelos seres humanos e mesmo hoje, com todos os nossos adventos tecnológicos e explicações cientificas, a figura dos deuses continua nos fascinando. O poder, a grandiloquência, a força dramática e a liberdade de expressão e ação atribuída aos deuses são imãs para a nossa atenção.

Partindo dessa força exercida por narrativas mitológicas Kieron Gillen, Jamie McKelvie e companhia criaram o argumento central para "The Wicked + The Divine". Aqui se conta o que ocorre quando divindades saídas dos diversos panteões do mundo aparecem no planeta Terra de 90 em 90 anos com o objetivo de criar inspiração através de milagres, maravilhas e muito tumulto por exatos dois anos, depois disso eles morrem e o ciclo retorna.


Em "A Lei de Faust", vol. 1 de "The Wicked + The Divine", somos apresentados ao ponto inicial da história, seu argumento, aos personagens, seus tons e formas. Esse primeiro volume em si é um triunfo em termos visuais e uma alegria em termos narrativos. É muito agradável a maturidade do texto e da arte apresentada. Salta aos olhos a diversidade étnica e de gênero dos protagonistas da história.

Apesar de não ser capaz de dizer para onde essa história vai a partir do volume 1, achei tudo nele instigante. A HQ reflete de forma muito adequada a ânsia e a luta por visibilidade protagonizada por pessoas negras, trans, homossexuais, bissexuais, travestis etc. Nele encontramos de forma respeitosa, real e clara personagens desses grupos a começar pela capa na qual uma jovem negra, Luci, toma conta da página inteira.


Quanto a história, como já foi dito, aqui se parte do pressuposto de que os deuses são imortais mas não podem ficar para sempre no mundo dos vivos. Exceto por Ananke, responsável por despertar e encerrar a estadia dos deuses no planeta, todos tem sua presença limitada a exatamente dois anos. Quando esse tempo acaba eles devem se suicidar. No entanto, durante o atual ciclo, ocorre algo estranho dentro do "Panteão dos deuses", algo com cheiro de traição. Um dos deuses precisa sai, ou ser tirado, de cena prematuramente e uma humana meio maluca decide investigar o que há por trás disso.


Nesse inicio encontramos muitas coisas não explicadas, mistérios ficaram no ar e as personalidades dos deuses apenas começaram a ser exploradas. Lúcifer, Odím, Sakhmet, Minerva, Baal, Amaterasu, Ananke, Morrigam, Inanna, Baphomet foram as divindades apresentadas nesse primeiro volume, mas poucas tiveram realmente um espaço no palco da ação.


Os holofotes estiveram apontados para Lúcifer, ou Lady Lucy, uma figura andrógena, questionadora, carismática, inspirada em David Bowie, tal como o/a Desejo dos Perpétuos. Também se destaca a figura Baal, o deus babilônico aparece com todo porte altivo de um jovem negro bem sucedido no auge de sua carreira e cara de multimilionário. Além deles, Morrigan, como uma divindade ligada a arte cujo lugar de atuação é o submundo do metro aparece um pouco mais que os outros personagens do panteão divino.


Tanto a arte quanto o roteiro de "The Wicked + The Divine" é fortemente inspirada na obra de Neil Gaiman. É muito difícil ver uma história sobre deuses entre mortais no século XXI e não pensar em "Deuses Americanos" e em toda HQ há uma destacada presença de temas e formas vistas em "The Sandman". Ainda que com menos força e maturidade, em todos os locais da HQ se sente a presença e inspiração dos Nove Irmãos Perpétuos criados por Gaiman.

Apesar de não conseguir pressentir para onde essa história vai ou se ela vai avançar e se aprofundar nas coisas que tenciona discutir, pretendo seguir com ela. Se a trama não se adensar e alcançar tons mais profundos como ocorreu em The Sandman,  ainda terei em minha estante uma obra na qual os autores dão visibilidade a quem merece ser visível. Esse tipo de projeto precisa ser estimulado.

sábado, 5 de agosto de 2017

As duas primeiras semanas como professora pública e os conselhos da Rainha Branca

Educar nunca é fácil. Ajudar um ser humano a construir suas estrategias para ser, estar e enfrentar o mundo não é um exercício fácil em nenhum contexto. Por quê seria fácil em uma escola cujo público atendido é composto maioritariamente por crianças em estado de fragilidade social?


Nunca me senti tão Alice na vida. Me sinto andando no país dos espelhos onde todas as coisas são o contrário do que deviam ser e o perigo está espreitando a cada porta. Se vacilar entro na floresta e esqueço meu nome, se brincar tropeço e me perco e quando estou diante de meus alunos me sinto diante de um "frumioso Capturandam" procurando quase em prantos pela "espada Vorpeira".

Chegar na segunda metade do ano em uma escola que fica há dois ônibus e um metro de distancia na qual tudo falta, até água para higiene pessoal, está se tornando um dos grandes desafios da minha vida adulta. Gostaria de ser uma pessoa mais leve para enfrentar esse momento, de levar na boa como se tudo fosse nada. Gostaria mesmo, mas não consigo! Sinto o peso desse desafio, a fragilidade de minha posição e  a responsabilidade que foi atribuída a mim.


Há professoras e professores capazes de impor sua presença aos adolescentes com um olhar, um psiu, um pé na sala e nada mais. Não sei como se faz isso. Também não gosto de jogos de medo e terror, não sei o que significa "Botar Moral!". As vezes tenho a impressão que as crianças e adolescentes adoram autoritarismo, gritos e uma pitada de agressão. Esperam ser dominadas pela força do adulto.

Dominação é um jogo do qual não gosto de participar. Não sei dominar e nem ser dominada! Gosto de construir cumplicidades e vínculos afetivos. Essas coisas não brotam como cogumelos pós dia de chuva, elas precisam ser construídas com tempo, trabalho, acertos e falhas. Tenho me angustiado muito com as falhas.


Possivelmente minha situação como professora novata para a qual os alunos torcem o nariz vai mudar e as coisas vão melhorar. Não é a primeira vez que começo em uma escola nova com turmas difíceis. Definitivamente estou onde quero estar, no entanto, não tem sido fácil. Tenho a impressão de está diariamente vivendo um tipo diferente e cada vez mais humilhante de "7x1".


Contudo, não há apenas dores. Tenho, assim como a Alice do Lewis Carroll, encontrado amigas e amigos. Existem pessoas solidárias dispostas a ajudar a gerir e solucionar o caos. As vezes elas parecem imaginação, mas diariamente as encontro e, na convivência com elas, me pego lembrando nos conselhos da Rainha Branca de "Através do Espelho".

Quando penso em chorar:
"Oh, não fique assim!"... "Considere a menina grande que você é. Considere a longa distância que percorreu hoje. Considere que horas são. Considere qualquer coisa, mas não chore." (pág. 227)
E quando alguma situação parece impossível:
"Quando eu era da sua idade, sempre praticava meia hora por dia. Ora algumas vezes cheguei a acreditar em até seis coisas impossíveis antes do café da manhã..." (pág. 227/228)
As fotos do post são pedaços das paisagens do meu caminho de casa ao trabalho e vice-versa.

domingo, 30 de julho de 2017

Formigueiro de Myrakãwéra [Literatura Infantil]


Um dos esforços da minha vida de leitora e educadora é aumentar meu acervo e arsenal de livros e histórias nas qual o protagonismo pertença aos povos indígenas e africanos. Isso ocorre não só por gosto pessoal, existe uma lei, a Lei 11.645, de 10 março de março de 2008, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de "História e Cultura Afro-brasileira e Indígena" nas escolas brasileiras e se munir desse tipo de conhecimento é um tipo de dever moral. Precisamos garantir a nossas crianças o direito que elas possuem de conhecer essas narrativas. Precisamos garantir aos povos indígenas a preservação de sua memória ancestral de todas as formas possíveis. Dessa necessidade veio para em minhas mãos o livro "Formigueiro de Myrakãwéra" escrito por Yaguarê Yamã, ilustrado por Uziel Guaynê Oliveira e publicado pela Editora Biruta.


Em "Formigueiro de Myrakãwéra" conhecemos uma das narrativas mitológicas dos povos indígenas parintin, sateré-mawé, arapiun e maraguá, que habitavam as margens dos rios da atual Região Norte do Brasil. A principio Myrakãwéra era um lugar sagrado no qual as pessoas iam para fazer oferenda aos deuses e pedir proteção e prosperidade. No entanto, com a chegada de Wãkãtin, um pajé com inclinações para o mal cujas ações malévolas transformaram o lugar sagrado em um ambiente perigoso e maligno mesmo séculos apos a morte de Wãkãtin.


Através do texto de Yaguarê Yamã e das ilustrações de Uziel Guaynê acompanhamos como esse lugar amaldiçoado acaba tragando e destruindo a vida de rapazes corajosos e imprudente que em busca de aventura e glórias ignoram os conselhos dos mais velhos e tentam desbravar os segredos do lugar. Achei impressionante como as bravatas dos jovens se tornam esforços infrutíferos, como eles apenas se colocam em perigo se tornando alvo fácil de gingantes formigas carnívoras e de zumbis cujo único impulso é fazer o mal. Os jovens são bem orientados pelos mais velhos, no entanto se negam a ouvir a voz da sabedoria e pagam o alto preço dessa imprudência.


A história contada em "Formigueiro de Myrakâwéra" é uma legitima narrativa mitológica. Ela explica aspectos da realidade e contém o registro de pedaços da história do povo que a criou quando cita os deslocamentos pelos rios, faz menção a rituais, aborda a um pouco de como os povos escolhem lidar com a presença das pessoas brancas na floresta e mostra quão caro pode custar o ato de ignorar a voz dos mais velhos.

A edição da Editora Biruta é uma coisa linda, as ilustrações do Uziel são um show a parte dialogando lindamente com o texto de Yaguarê. Não tem preço ter acesso a essa narrativa contada em primeira mão por alguém que pertence ao povo maraguá e é comprometido com a preservação da memória e identidade de seu povo.

Se você quiser ver um pouco mais do livro, basta da uma olhadinha na página dele do site da Editora Biruta clicando AQUI. Ele também está a venda na Lojinha da Editora.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Nos trilhos do metro, Samuel Beckett e muita fragilidade...


Mudei de emprego. Para minha alegria e angustia precisei deixar a Educação Infantil (espero que apenas momentaneamente) e abraçar com os dois braços e exclusividade o Ensino de História. Agora trabalho em outra cidade e tenho uma vida na qual os trilhos do metro existem.

O metro é mundo a parte. Ainda me sinto meio deslocada, fora de prumo, pobre em estratégias para ir e vim. Aos pouco vou me tornando mais uma entre os muitos habitantes do Mundo do Metro enquanto pouco a pouco vou conhecendo os velhos moradores.

Hoje encontrei no metro um homem que distribuía "Boa Noite!" e pedia uns trocados. O relógio marcava 12 horas e 45 minutos e todo o sol do Recife estava invadindo o vagão de ponta a ponta. Era, inclusive, o mesmo homem que ontem as 7 sete da noite me deu "Boa Noite!" e me pediu uns trocados. Ele parecia caminhar fora do tempo e do espaço, preso na noite em plena luz do dia. Um pé na vida o outro fora dela. Frágil de um jeito que comoveria a própria fragilidade. E eu ali sem ação, sem chão, parada e correndo pelos trilhos, atordoada impotente.

De alguma forma ele me lembrou o Malone de Samuel Beckett. Um homem arruinado, doente, a beira da morte que escreve um relato longo, desconexo, cheio de histórias confusas sobre a sua vida. Ler "Malone Morre" não foi uma leitura muito fácil, tem quase um ano e ainda estou em processo de digestão. Nem via luteratura é fácil conviver e mergulhar nas fragilidades humanas. Como as pessoas cuja consciência da realidade está fragilizada, por vezes o texto de Samuel Beckett as vezes não parece fazer sentido, mas faz, de perto faz.


"Um mínimo de memória é indispensável, para viver de verdade."
(Samuel Beckett)

"Mas conheço a sombra, ela se acumula, se torna mais densa, depois de repente explode e afoga tudo."
(Samuel Beckett)

"E talvez seja agora que ele veja o céu do velho sonho, os cruzeiros e a terra também, e os espasmos das ondas em que nenhuma se mexe sem que todas as outras se mexam outro tanto, e o movimento tão diferente dos homens, por exemplo, que não estão ligados uns aos outros mas livres para ir e vir, cada um do seu jeito. E eles não se fazem de rogados e vão e vêm, no estrépito de matraca dos cliques de suas grandes articulações, cada um do seu lado. E quando um morre os outros continuam, como se não fosse nada."
(Samuel Beckett)

"Decididamente nunca me será dado terminar nada, fora respirar. Não é preciso ser guloso. Mas não é assim que se sufoca?"
(Samuel Beckett)

segunda-feira, 17 de julho de 2017

A Mitologia Nórdica do Neil Gaiman


Quando descobri que Neil Gaiman escreveu um livro sobre mitologia nórdica eu tinha todos os motivos do Multiverso para ler.

Por um lado, tenho um fraco por narrativas mitológicas. Gosto da forma como elas são resilientes, como mostram a força da oralidade para passar conhecimento, elas antecedem a ciência e sobrevivem a ela, mesmo não possuindo mais o status de verdade, ainda encantando e instigam. E claro, quando tudo em uma aula de história falhar, e muita coisa pode falhar em uma aula de história, uma narrativa mitológica pode salvar a lavoura.

Por outro sou apaixonada por Neil Gaiman. O britânico se construiu através dos anos como um narrador privilegiado, ele é capaz de passear por praticamente todos gêneros possíveis e imagináveis. Gaiman roteiriza quadrinhos/séries/filmes, ataca de poeta, escreve livros infantis, seus romances são inesquecíveis, seus contos são precisos em sua capacidade assustar, instigar ou encantar.


Em "Mitologia Nórdica" somos apresentados a um conjunto de mitos nos quais se conta desde a criação do mundo e todas as coisas até os dias finais desse mundo. Sendo Odin, o pai de todos, Thor, o senhor dos trovões e o mais forte fisicamente de todos; e Loki, a personificação da astúcia, os protagonistas. E ora vejam só, os nórdicos também tem uma trindade? Ou o destaque dado a esses três se deve ao fato dos mitos desse povo terem sido registrados no papel e assim preservados por padres?

Bem, podem me chamar de chata, mas sempre que vejo trindades masculinas tão arrumadinhas nas narrativas mitológicas ou um destaque demasiado para divindades do gênero masculino em detrimento das do gênero feminino me pergunto: "Quem trouxe essas narrativas para os idiomas modernos?". Geralmente a resposta é, tcharam: PADRES CATÓLICOS. Não vamos questionar a importância de Odin, Thor e Loki, mas pensemos na possibilidade de terem existido outras formas de narrar o surgimento e fim dos tempos colocando em evidencia deusas e não deuses e essas narrativas, para nosso desespero, foram descartadas.


A parte minha epifania, o livro é uma delícia de ser lido! Entre as várias peculiaridades do pensamento mitológico nórdico Gaiman privilegiou a figura de Yggdrasill, a árvore do mundo; o Poço do Mímir, no qual se pode obter conhecimento; a origem dos tesouros dos deuses, como o Martelo de Thor por exemplo; o Ragnarök, a batalha final e o fim de tudo; e sobretudo a crença na astúcia, trapaça e jogos de palavra como coisas capazes de superar tamanho e força.


Os deuses nórdicos, a exceção de Thor, são trapaceiros, astutos e egoístas ao extremo. Se eles protegem o Sol, a Lua, a Beleza e a Primavera é por necessitarem disso e não por se sentirem de alguma forma responsáveis por alguma coisa. São criaturas interessadas em sobreviver ao inverno e garantir sua segurança em um mundo cercado de neve e perigo cujo fim está próximo.

Foi instigante pensar sobre as peripécias de Odin, um deus para o qual está devidamente informado é a coisa mais importante do multiverso. Ele trocou um dos olhos por conhecimento, sacrificou a si mesmo na Árvore do Mundo por mais conhecimento ainda e conserva próximo a os Corvos Huginn e Muninn ("pensamento" e "memória"). A figura de um "Pai de Todos" tão avido pelo saber coloca em evidência o quão central era para aquele povo as virtudes da mente. Na mitologia nórdica a força bruta mal orientada não sobrevive ao inverno, a boca do lobo, aos perigos da noite, ao perigo que existe além da Muralha.


Senti falta de contos nos quais as deusas tenham maior protagonismo. Gostei da forma como Gaiman conseguiu deixar seu texto leve, acessível a crianças alfabetizadas, possível de ser lidos para crianças em processo de alfabetização e instigante para adultos. Foi maravilhoso ler sobre Yggdrasill, a Árvore na qual se sustenta os Nove Mundos (Asgard, Álfheim, Nídavellir, Midgard, Jötunheim, Vanaheim, Nifleim e Muspell). Adorei conhecer a história dos três perigosos filhos de Loki. Ainda estou pensando no Ragnarök.

Não posso dizer muita coisa sobre a tradução de Edmundo Barreiros, mas achei a edição da Intrínseca linda e por isso enchi o post com imagens dela. E, para quem curte romances históricos, a Mary Balogh, autora da série "Os Bedwyns", se inspirou nessa mitologia para compor seus personagens e as personalidades deles.


sábado, 8 de julho de 2017

"Branca de Neve" de Jacob e Wilhelm Grimm


Outro dia acordei com saudades da Branca de Neve. Pois é, até eu me surpreendi, mas aconteceu. Durante a infância minha tia me deu um daqueles livros "com os melhores contos de fadas" e entre esses contos existia, claro, o da menina branca como a neve, de cabelos negros como o ébano e lábios vermelhos como uma gota de sangue.

Apesar das histórias de princesas não serem minhas preferidas, elas não vivem muitas aventuras e terminam casadas, a ideia de uma menina fugindo da morte se embrenhando em um território desconhecido, encontrando uma casa segura dentro desse lugar perigoso e vivendo com amigos gentis tendo uma floresta como quintal tem certo encantamento.

Se o início e o fim da história é pouco promissor, há consolo em saber que entre a vida com uma madrasta cruel e um casamento com um completo desconhecido, existiu para Branca de Neve uma vida com amigos e uma floresta como quintal.


Então, cheia de nostalgia, peguei a versão adaptada por Laurence Bourguignon com ilustrações de Quentin Greban e li. Em linhas gerais é uma adaptação bem fiel ao texto original dos Grimms tendo como ponto alto do livro o trabalho do Greban. As ilustrações são belíssimas, tomam páginas inteiras, proporcionam um mergulho dentro da história e causam aquele encantamento tipico da leitura de livros infantis.


No mais, a história da Branca fala de como uma mulher invejosa trama o assassinato da filha de seu marido de várias formas: contratando um caçador, envenenando um cordão de fios de seda, um pente e até uma maçã.


Conta como uma jovem foge da inveja de sua madrasta com a ajuda da generosidade de pessoas que se arriscam para lhe poupar a vida ou lhes fornecem abrigo em troca da colaboração com serviços domésticos.


É sobre pessoas capazes de burlar a morte através de observação, persistência e sorte. Por três vezes a madrasta consegue envenenar a menina, nas duas primeiras ela usa fios de seda e um pente, ambos são tirados pelos anões do corpo da moça. A maçã é apenas o terceiro artifício e esse é vencido pela sorte, pois quando o Príncipe encontra Branca de Neve adormecida em um caixão de cristal se encanta com ela e decide leva-la ao seu castelo, no caminho alguém tropeça e a fruta envenenada, presa na garganta dela, é colocada para fora.


Também é uma história sobre castigos duros e recompensas duvidosas. De um lado a Rainha Má é punida com tortura, ela recebe um par sapatos de ferro em brasa para queimar os seus pés e fazer ela dançar até a morte, do outro Branca de Neve é recompensada com um casamento com um desconhecido cuja recomendação é pertencer a alguma família real e ter um título nobiliárquico abaixo do dela, sendo única herdeira do trono com a morte do seu pai ela será Rainha.

Em versões anteriores a dos irmãos Grimm a maldade e a inveja vem da mãe da menina e existem dezenas de versões contemporâneas nas quais todas as partes dessa história são reviradas pelo avesso e tudo é questionado, reavaliado e reescrito. Porém essas são outras histórias e tema para outros posts.


A edição de "Branca de Neve" de Jabob e Wilhelm Grimm adaptada por Laurence Bourguignon e ilustrada por Quentin Gréban faz parte do Programa Nacional da Biblioteca Escola de 2014, ele deve integrar o acervo das escolas e creches publicas de todo Brasil, eu peguei emprestado da creche na qual trabalho. A leitura dele é indicada para crianças entre 6 e 10 anos.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Livro das 1001 Noites - Ramo Sírio


"As aventuras de Simbad, o Marujo" é uma das histórias mais importantes da minha vida, conheci esse conto durante a infância, li e reli várias vezes, mesmo agora ainda quero ser Sidbad. Quando descobri que ele pertencia as narrativas das "1001 Noites" quis ler tais narrativas e procurei por elas bibliotecas a dentro, mas só em meado de 2005 vi o professor Mamede Mustafa Jarouche tinha traduzido o "Livro das 1001 Noites" do árabe para o português e descobri em qual fonte buscar minha satisfação leitora.

Infelizmente, em 2005 eu tinha 16 anos e nenhuma renda. Só me restou esperar o grande dia no qual eu poderia ter esse bendito livro. E eu esperei, e o tempo passou, foram e vieram prioridades até que o belo dia no qual em meio a andanças virtuais, encontrei com o box da Biblioteca Azul e, com uma enorme dose de delírio, comprei o danado.

Meus sentimentos quando o livro chegou nas minhas mãos são como o que Clarice Lispector escreveu no conto "Felicidade Clandestina" sobre a sensação de finalmente conseguir ter o livro "Reinações de Narizinho".

Desde sua chegada as minhas mãos tenho lido o livro vagarosamente, me deixando ficar com ele no colo, elaborando rituais para prolongar o prazer, deixando ele pousado na estante como se eu nem soubesse da existência dele ali. Ler esse livro é uma experiencia de felicidade com poucos precedentes.


No "Livro das 1001 Noites" conta-se a história de um Rei que após ser traído por sua esposa se desilude com todas as mulheres e em um ato de vingança decide todos as noites casar com uma mulher e mata-la ao amanhecer. A matança se espalha pelo reino e o terror passa a varrer todas as casas até o momento no qual a filha do vizir, Sahrazad, "conhecedora das coisas, inteligente, sábia e cultivada", decide acabar com a matança usando um estratagema chamado de "contação de histórias".

Contando com o apoio da irmã mais nova ela começa a contar uma história capaz de cativar a atenção e a curiosidade do Rei até o ponto no qual o Sol nasce e a história fica incompleta. Para ouvir a continuação O Rei preserva a vida da narradora que vai continuar usando a estratégia noite após noite adiando sua morte dia após dia.

Com seu conhecimento e astucia, a jovem salva a si e também a outras, pois enquanto ela não é assassinada ninguém mais é. As histórias são usadas para afastar o terror da morte de todas as mulheres do reino, elas preservam a vida de todas e ao longo do tempo tratam curar o rancor do homem traído enquanto divertem e instigam sua alma a alçar novos voos.

Em um contexto assim, ler as fábulas de Sahrazad é simplesmente um deleite. A maior parte delas não tem propositalmente nenhum teor didático, moralizante ou um padronizado. O livro é um conjunto de todos os tipos de gêneros possíveis e imagináveis: romance policial, sátira, poesias e poemas, romance, aventura, fábulas, histórias picantes e até religiosas costuradas em labirintos e teias intricadas e instigantes de se acompanhar.

A box da Biblioteca Azul é um espetáculo para quem ama a leitura, a História e tem paixão por linguística. Nele nós encontramos o prefácio do professor Mustafa Jarouche no qual ele nos conta a história do "Livro das Mil e Uma Noites" cujo fragmento mais antigo data de 879 d. C. e é originário do Iraque. Nem sempre o conteúdo do livro correspondeu exatamente ao número de noites, só por volta do século XVIII escribas egípcios conseguiram chegar as 1001 adicionando, ao sabor de seu próprio gosto, várias histórias em circulação no mundo árabe.

Existem dois ramos do livro, o Ramo Sírio, no qual não se completa as 1001 noites e o Ramo Egípcio, esse sim com um titulo condizendo com o conteúdo. O box da Biblioteca Azul contém o Ramo Sírio, nos vol. 1 e 2; e Egípcio, nos vol. 3 e 4. Eu terminei de ler o vol. 1 do Ramo Sírio e a leitura foi uma viagem incrível pontuada com magia, malicia, encantamento e muita história com H maiúsculo pois dialogando com fantasia nesses livros estão registrados muitos dados sobre vários aspectos da cultura dos povos do mundo árabe.

As histórias da Sahrazad revelam um Mundo Árabe amplo; tecnologicamente desenvolvido, em comparação com a Europa da época; geograficamente e economicamente conectado com vários povos através de rotas comerciais, Bagdá, Cairo e até a China são destinos pelos quais os personagens circulam; com uma diversidade étnica e religiosa surpreendente, persas, cristãos, judeus e muçulmanos convivem e dialogam de diversas formas.

O Ramo Sírio do "Livro das 1001 Noites" é composto por manuscritos copiados entre o século XIV e XVIII nas terras árabe-asiáticas hoje conhecidas como Líbano, Síria e Palestina. Nele nos é dado a saber sobre um mundo feito de grandes cidades, transações comerciais, mulheres com inteligencia aguçada, homens cuja sorte se define por saberem fazer um doce de damasco inconfundível.

Sahrazad emerge do texto como uma narradora de conhecimento e sabedoria impar, incomoda muito o quanto a figura dela foi sensualizada ao longo do tempo. Surpreende muito como essa sensualidade NADA tem a ver com o texto contido no "Livro das 1001 Noites", em nenhum momento os aspectos físicos da personagem são descrito. A mais famosa contadora de histórias da especie humana é descrita da seguinte forma:
"Sahrazad, a mais velha, tinha lido livros de compilações, de sabedoria e de medicina; decorara poesias e consultara as crônicas históricas; conhecia tanto os dizeres de toda gente como as palavras dos sábios e dos reis. Conhecedora das coisas, inteligente, sábia e cultivada, tinha lido e aprendido." (pg. 49)
Outra coisa incomoda tem sido percebe o quanto a maior parte das histórias da 1001 noites popularizadas no ocidente são protagonizadas por homens, enquanto no livro é possível encontrar histórias protagonizadas por personagens de ambos os gêneros.

Aliás, voltando no tópico sensualidade, por incrível que pareça, apesar de para muita gente noites árabe evocarem sensualidade, as mulheres cujas histórias são contadas não estão presas em haréns ou derivativos.

As mulheres cujas histórias Sahrazad trás a tona são criaturas urbanas de diversas classes sociais e ocupações. Em suas narrativas existem princesas e plebeias; livres e servas; humanas e djins; solteiras, casadas e viúvas. Espalhadas casas, mercados e becos em cidades efervescentes, elas circulam, se ocupam, vendem, compram bens e serviços enquanto se movem para uma aventura ou tem uma aventura sendo movida em torno delas.

Nas histórias feitas para entreter a fúria do Rei, mulheres tramam e se prendem em tramas ao sabor da necessidade e situação, dificilmente usam recursos sensuais e, em posição oposta a de quem conta tudo, não possuem grilhões prendendo suas mãos e pés.

Com sua protagonista genial, no verdadeiro sentido da palavra, O livro das mil e uma noites segue ampliando seu espaço em meu coração, fixando raízes e me deixando mais e mais apaixonada por seu conteúdo. Facilmente ele entra na lista dos 10 melhores livros da vida. E, só para constar, quando eu terminar de ler o vol. 2 do Ramo Sírio volto a falar sobre ele.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

AohaRaido: A Primavera de nossas vidas


"AohaRaido" ou "Ao Haru Ride" é uma série de mangás em 13 volumes. Io Sakisaka é a autora e no Brasil quem publicou foi a Panini com o selo Planet Manga. Através dos 13 volumes acompanhamos a história de como a garota Futaba Yoshioka e o garoto Kou Mabuchi enfrentam os desafios e delicias de atravessar a adolescência lindando com traumas familiares, vida escolar, amor e amizade.

Em linhas gerais é um shoujo bem comum e sem muitas novidades. Há um grande destaque para o romance entre o Kou e a Futaba e as idas e vindas do casal. Os dois se conhecem na escola durante o finalzinho das suas infância e se separam quando o Kou muda de cidade. Quando eles voltam a conviver são pessoas diferentes com cargas emocionais diferentes, porém ainda nutrem sentimentos um pelo outro. A Futaba dialoga melhor com seu sentimento e abraça o amor que sente, o Kou é mais resistente e as vezes irritante. Não foram poucos os momentos nos quais eu detestei o Kou e torci para que a Futaba encontrasse outro amor.


Para melhor temperar a história, além do casal de protagonistas a Io Sakisaka montou um elenco de coadjuvantes bem legal. Yuuri Makita e Shuuko Murau, amigas de Futaba são personagens decididas e leais cuja amizade se torna uma fonte de apoio emocional tanto para o romance quanto para outros aspectos da vida da protagonista. Do lado de Kou, o Aya Kominato muitas vezes arrebatou minha simpatia mais que o protagonista.


Em linhas gerais, Io Sakisaka fala a aventura de ser jovem, de viver o primeiro amor e de está entre amigos. Publicado bimestralmente AohaRaido se tornou um companheiro durante dois anos e dois meses e pela constância em minha vida, de alguma forma, se tornou um amigo. Entre altos e baixos, enquanto eu oscilava entre torcer pelo Kou e ter vontade de matar ele, vivi momentos importantes e reviravoltas em minha história.

Acompanhei a história do Kou e da Futaba volume a volume, me vi periodicamente parando minha vida para acompanhar as idas e vindas desses dois e assim eles se tornaram uma coisa constante enquanto tantas outras se tornaram inconstantes. Afinal, várias coisas podem mudar na vida de uma pessoa em dois anos.

Eu, por exemplo,
  • Fui demitida de um emprego;
  • Adquirir um novo emprego;
  • Passei em concurso público para professora e finalmente fui convocada;
  • Aprendi o básico da natação;
  • Conquistei mais de uma dezena de parcerias em um blog literário de sucesso;
  • Sai desse blog literário no auge de seu sucesso;
  • Viajei para outro estado e voltei para casa esvaziada de algo importante;
  • Sai da faixa dos 20, entrei na dos 30 e tenho 31 anos agora;
  • Adquiri alguns livros com os quais sonhei por anos, inclusive o box do "Livro das Mil e Uma Noites" com a primeira tradução para o português feita diretamente do árabe;
  • Vi uma das relações afetivas mais intensas e intimas que construí ruir como um castelo de cartas;
  • Perdi um dos meus irmãos;
  • Ainda não aprendi a lidar com a perda, mas continuo vivendo.
Ler os 13 volumes foi uma pequena jornada maravilhosa. Completar essa coleção me deu uma sensação agridoce. Por um lado há a emoção de chegar ao fim e do dever cumprido por outro não há mais um volume a esperar e fica um vazio emocional. Talvez por isso, nesse momento, quando estou prestes a me lançar em uma nova aventura profissional, vim aqui escrever sobre ele. AohaRaido foi uma pequena ancora para meu barco, já sinto saudades.

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Não há palavras para tudo... [Citação 013]

"Não é verdade que há palavras para tudo. Também não é verdade que sempre se pensa em palavras. Até hoje há muitas coisas que não penso em palavras, não as encontrei, não no alemão do vilarejo, não no alemão citadinho, não no romeno, não no alemão oriental ou ocidental. E em nenhum livro. Os meandros interiores não coincidem com a linguagem, eles nos levam a lugares onde as palavras não podem permanecer. Muitas vezes é o decisivo, sobre o que não se pode dizer mais nada, e o impulso de falar a respeito é bem-sucedido porque ele passa ao longe. A crença de que falar destrincha os emaranhados só conheço do ocidente. Falar não concerta nem a vida no milharal e nem aquela sobre o asfalto. Também só conheço do ocidente a crença de que não se pode suportar o que não tem sentido." (Herta Müller)
A citação acima foi tirada do ensaio "Em cada língua estão fincados outros olhos" contido no livro "O rei se inclina e mata" da autora romena Herta Müller.


Particularmente acredito no poder das palavras e na capacidade que elas possuem de nos ajudarem a digerir a vida, mas lendo as palavras da Herta não posso deixar de concordar, refletir e reajustar minha percepção do mundo e das possibilidades da linguagem verbal.

Existem sentimentos inominados, situações indescritíveis, camadas de realidade sobre as quais dificilmente é possível palavras contar. Há ocasiões nas quais as palavras caem como pedras de um barranco e a alegria e a dor se tornam indizíveis. Não por acaso existem coisas comunicadas com o olhar, o abraço, o sorriso, o choro e mesmo com o silêncio.

Particularmente tenho dificuldades de lidar com o silêncio, a lacuna, a falta de palavras. Aceitar o indizível tem sido uma das aventuras da vida. Ainda estou aprendendo a compreender o não dito, as coisas só sentidas, o pressentimento, o incomodo, as sensações presas no ar, nas entrelinhas, nos espaços da comunicação e considera-las reais.

A parte isso, preciso ainda: para quem gosta de prosa poética, de encarar reflexões sobre a experiência de ser e estar nesse mundo a romena Herta Müller é uma excelente pedida. Sua escrita é muito influencia pela experiencia de viver sobre o peso da ditadura comunista na Romênia, então o sofrimento e trauma estão em pauta nos seus livros. Fugindo do formato dramalhão ela tende a aprofundar suas reflexões mais e mais e nos leva a ponderar sobre aspectos dolorosos da vida que tendem a passar despercebidos. 


Minha primeira experiencia a autora foi com o livro "O compromisso" e foi amor a primeira linha. Fiquei encantada como a forma como Herta contou a história de uma mulher comum que tem o compromisso de prestar depoimento a policia secreta. Ela sai as oito da manhã para um compromisso as 10 e durante o caminho nos conta de forma não linear a história da sua vida. Sou uma grande fã de conversas em ônibus e coisas do tipo, lendo o livro me sentir em uma conversa dessas. Fiz até resenha para o livro, quem quiser conferir deixo o LINK.


Uma das minhas metas de vida é ler o máximo possível de Herta Müller. Ela é uma autora a ser desbravada mais e mais.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Solar: História de Origem [HQs]


Um das minhas paixões literárias mais brilhantes é a tal da História em Quadrinhos, desde criança tenho vontade de ter uma coleção gigante de HQs, mas preciso confessar: nos meus sonhos a coleção era feita de mangás. Só nos últimos anos comecei a olhar com afeto para o formato ocidental e passei a colecionar Graphics Novel, Marvel, DC e os autores nacionais.

Nesse contexto, minha vida com HQs tem sido uma aventura, um processo de descoberta no qual "Solar: História de Origem" ganhou um lugar especial e aconchegante. Nele somos apresentados a um super heróis brasileiro com direito a super poderes dialogando diretamente com os universos Marvel e DC, porém sem ligações diretas com ele.

Gabriel, protagonista da trama, filho de uma antropóloga com um xamã de uma das muitas tribos sobreviventes da Amazônia, um belo dia ele se ver visitando um sitio arqueológico e tem sua atenção cativada por algumas das pinturas rupestres. Com a força de um imã a pintura o convida ao toque, ele não resiste e tem um momento único, um tipo de despertar, algo que atordoa, queima e liberta algo dentro dele. Após esse momento entre as pinturas rupestres a aventura de Gabriel começa.

Claro, como um bom primeiro volume, a história precisa ser apresentada, o herói precisa descobrir seus poderes, encontrar um assistente, salvar pessoas e ter alguma revelação sobre seu passado. Tudo isso acontecer em "Solar: História de Origem" e deixa o leitor extremamente entusiasmado com a leitura. Wellington Srbek, Abel Vasconcelos e Cleber Campos tiveram o cuidado de retratar na arte a diversidade étnica do povo brasileiro, das cidades brasileiras e seus problemas de urbanidade.

 Foi uma delícia descobrir esse herói brasileiro! Recomendo muito!

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Peter Pan de J. M. Barrie [Literatura Infantil]

  
Se eu tivesse me auto-desafiado a ler e resenhar clássicos da literatura infantil e contos de fadas em 2017, não estaria lendo e resenhando com tanta frequência esses gênero. Como não me auto-desafiei, aqui estou para comentar mais um clássico da literatura infantil.

Ou, talvez, essa volta ao mundo literário da infância tenha a ver com a incrível sensação de vazio na qual me sentir envolvida, as vezes ainda me sinto, há algum tempo atrás. De muitas formas literatura infantil quando bem feita tem qualquer coisa pronta a abraçar; acolher; levar em conta o fantástico, o misterioso, o inexplicável; e, mesmo dentro de uma enorme complexidade, a literatura infantil é simples, simplicidade nesses momento é tudo.


A primeira sensação que tive lendo J. M. Barrie foi de uma profunda nostalgia da infância, existe qualquer coisa em nós que não sobrevive a infância. Esse sentimento foi intensificado ainda mais pela experiencia de ler a história em uma edição completamente ilustrada por Eric Kincaid.

Amo edições de bolso, são charmosas, cabem na bolsa e na palma da mão, mas nada produz uma imersão tão grande no mundo infantil e nas memórias de infância quanto ler um livro infantil em formato de livro infantil. Ler livros assim fazem o tempo voltar, me senti com nove anos de novo, senti saudades das minhas edições há muito desaparecidas de Simbad e Ivanhoé e da minha própria Terra do Nunca.


Quanto a história do Peter, apesar do quanto ela foi explorada pela mídia nas ultimas décadas é impressionante o quanto a narrativa de Sir James Matthew Barrie ainda tem a dizer.

Barrie conta a história de um menino em situação de rua, desamparado que vive com outras crianças em situação de rua e desamparadas na Terra do Nunca, um lugar no qual essas crianças são chamadas de "meninos perdidos" e não crescem. Toda aventura narrada no livro começa quando quando Peter rouba Wendy e seus irmãos do conforto do seu quarto as vésperas do Natal e os levar voando para essa terra de maravilhas e aventuras.

Confesso que várias vezes me peguei pensando se a aventura dessas crianças se deu em um mundo a parte ou se eles simplesmente vagaram pelas ruas de Londres e a imaginação infantil fez o trabalho de transformar a realidade em magia.


Quando Peter explica a Wendy sobre a origem dos meninos perdidos foi impossível não lembra do "Capitães de Areia" de Jorge Amado e daquelas crianças em situação de rua vivendo a aventura de existir a margem pelas ruas, becos, vielas e praia de Salvador. É desalentador pensar em crianças perdidas, se unindo para sobreviver, usando dos recursos da infância para enfrentar piratas e perigos.
"São os meninos que caem dos carrinhos quando as babás não estão olhando. Se não forem reclamados em sete dias, são mandados para longe, para a Terra do Nunca. Sou o chefe deles."
Muita gente se choca com a falta de limites morais de Peter, com a facilidade com a qual ele é capaz de sequestrar, matar e mutilar. O Capitão Gancho as vezes parece uma vitima e os piratas são homens para lá de desamparados, mas eu me pergunto, o que se pode esperar de uma pessoa a quem até o prazer de ouvir uma história é negado?

As "crianças perdidas" não contam com nenhum adulto para cuidar delas, vivem escondidas, a margem da sociedade em mundo cheio de possibilidades para aventuras, porém no qual é possível se passar inclusive fome. É verdade que existe Sininho, a fada mais ciumenta do multiverso, que é adulta e vive com as crianças, porém ela não assume o papel de cuidadora em momento algum.

E sobre ausência de adultos, é mentira dizer que na "Terra do Nunca" eles não existem. As sereias, os indígenas e os piratas são adultos, porém estão ocupados demais vivendo suas vidas e cuidando de suas próprias crias, para se ocuparem daquele bando de "pestinhas". E nesse ponto lembrei do Chaves do Roberto Gómez Bolaños vivendo em um barril, eternamente faminto, constantemente humilhado pelas crianças da vizinhança e tolerado pelos adultos por não ser violento. 


Ninguém humilha Peter e as crianças perdidas, pois elas são violentas, agressivas e só obedecem suas próprias regras. Vez ou outra tem um ato de generosidade aqui e ali pelo qual são recompensadas e também são capazes de estabelecer alianças, mas sob ameaça elas sempre reagem com ferocidade.
"- Sabe, disse Peter - não conheço história alguma. Os meninos perdidos também não.
- Que coisa! disse Wendy.
- Você sabe, perguntou Peter - por que as andorinhas constroem ninhos no beiral das casas? É para ouvir as histórias que contam para as crianças, à noite..."

As crianças perdidas são livres, assustam quando exercem sua liberdade e comovem quando mostram o quão carente de mães são. Uma vez instalada na toca das crianças Wendy vira a mãe de todas elas e com amor maternal assume todas as funções de mãe como se brincasse de casinha. Não é a toa que com o tempo a melancolia toma conta da menina e o desejo de voltar para casa surje em seu horizonte, para ela a Terra do Nunca não é nada lúdica.

E sobre carência de mãe, também me comove ao extremo a carência dos piratas. Para mim, eles são os meninos perdidos que sobrevivem a infância e Peter Pan não é um nome próprio e sim o titulo dado ao chefe dos meninos perdidos, uma vez adulto ele vira o Capitão Gancho em um ciclo sem fim. E isso me lembra a vida das crianças em situação de rua.
"- Pan, perguntou ele - quem é você?- Sou a juventude, sou a felicidade, respondeu Peter. - Sou um passarinho que acabou de sair do ovo.Era um absurdo, claro, mas, para o infeliz Gancho, era prova de que Peter não sabia quem era."

No mais, Peter Pan é uma história cheia aventura, magia. Recheada com seres fantásticos, magica, sensibilidade e provocações. Mesmo agora muito se pode falar sobre ela, é um clássico em si, uma história feita para provocar que não duvida da capacidade de compreensão do leitor e o leva a pensar sobre a realidade. Estou apaixonada por essa história!