quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

No Dia 8 de Dezembro, TODOS os caminho levavam ao Morro da Conceição

Durante a primeira semana do mês de dezembro, qualquer observador da vida cotidiana do Recife tem a nítida sensação de que todos os caminhos levam ao Morro de Nossa Senhora da Conceição. Eu, ao menos, tenho!


A Festa religiosa que ocorre em torno a devoção a imagem de Nossa Senhora da Conceição localizada no alto do Morro da Conceição é algo muito central para qualquer pessoa que more na Zona Norte da cidade, é impossível não ser notada de um jeito ou de outro. Pessoas de todos os lados da cidade e região metropolitana se deslocam em debandada de todas as formas possíveis para se encontrar com uma imagem gigante da Virgem localizada no topo do morro levando a Ela pedidos e agradecimentos.

Consequentemente, aos pés do morro se concentra uma infinidade de comerciantes ambulantes vendendo todos os tipos possíveis e imagináveis de coisas, assim como uma infinidade de brinquedos meio caindo aos pedaços mais suficientemente consistentes para não causar grandes acidentes.


Durante toda minha infância eu desejei ir ao menos uma vez a "Festa do Morro". Não pela devoção, pois desde que me lembro congrego em uma vertente neopentencostal do cristianismo e me foi incutida uma solida descrença na capacidade dos santos de obter graças diante de Deus, mas sim pela festa em si, pela diversão, pelos doces, pelos brinquedos. Muitas crianças de mina denominação religiosa com pais mais liberais iam, todas as crianças não evangélicas iam, por trinta anos eu não fui. Mas, quando vi todos os ônibus adornados com a placa "FESTA DO MORRO", não resistir!

Me vesti com meu espirito de Sindbad e na companhia da minha amiga Mercia resolvi desbravar um espaço estrangeiro para mim em minha própria terra. Foi maravilhoso!!!!


Subir o Morro da Conceição em dias de Festa do Morro não foi só uma experiencia de satisfazer um desejo infantil de me empanturrar de doces, espetinhos, rapadinhas, pasteis, refrigerante e sorrisos infantis. Depois de passar uma vida me dedicando ao estudo da História foi também uma experiencia antropológica e cultural, foi interessante vê a diversidade de gênero dos visitantes que Nossa Senhora recebe com seu rosto congelado em uma expressão de longanimidade eterna, gente com pé no chão, ajoelhada, com tijolos na cabeça, com velas e mais velas, muitas crianças pequenas vestidas de azul. Os filhos postiços da Virgem do Morro parecem ser pessoas de desejos simples como acolhimento, moradia e saúde para seus filhos.


Interessante também foi perceber como muita gente faz da festa simplesmente um momento de diversão ou de arrecadação de fundos para ajudar nas inúmeras providências necessárias para o romper do ano como pintar a casa, restaurar moveis, comprar novos lençóis, toalhas de mesa e de banho, sapatos, roupas para as crianças. As providências de fim de ano não são apenas caprichos, elas precisam ser funcionais, afinal o ano é longo e cheio de horrores, para alguns a crise é perpetua.


Há quem pense que a multidão pensa com uma mente só, um tipo de manada rumo a uma fonte d'água incerta, mariposas em torno de uma luz. Enquanto eu me juntava a multidão que sobe o Morro da Conceição me ocorreu estarem essas pessoas erradas sobre a multidão. A multidão não pensa coletivamente, ela congrega pessoas com anseios, desejos e motivações diferentes, na Festa do Morro vi pessoas interessadas em sua devoção, pessoas interessadas em agradecer e pedir graças a Ela, pessoas que estavam ali só para vender qualquer coisa - brinquedos/comida/sonhos, pessoas interessadas em se divertir sozinha ou com amigos, pessoas prontas para consumir o máximo possível de bebida alcoólica.


Foi uma experiencia interessante, me sentir vivendo algo meio fora do tempo e do espaço. Algo que se repete ano após ano há mais de cem anos. Algo me diz, meu conhecimento histórico talvez, que festas realizadas próximas aos solstícios e equinócios existem desde o surgimentos dos primeiros humanos nesse planeta girante, mas eu nunca havia participado de nenhuma, então teve ares da magia para mim. Posso ser que eu seja apenas essa pessoa estranha que sou com minhas impressões estranhas da vida, mas havia qualquer coisa de diferente no ar, no entardecer, nas várias  pessoas misturadas com suas várias expectativas.


Outra coisa a se dizer é que essa foi a 106ª Festa do Morro de Nossa Senhora da Conceição e foi a primeira ocorrida depois da Arquidiocese de Olinda e Recife terem reconhecido essa Igreja localizada nos recôncavos da Zona Norte do Recife como um Santuário. Ou seja, essa devoção, essa festa, é algo construído pelas pessoas, as autoridades tiveram que engolir e aceitar.


Uma amiga católica me disse, ciente de que eu ia essa ano e um pouco receosa do meu olhar critico, que a Igreja Católica Apostólica Romana não aprovava muitas das situações protagonizadas pelos fieis. Mas, enquanto eu observava a situação toda com meus próprios olhos me ocorreu que Nossa Senhora é mãe e as mães entendem muita coisa.


Todo esse texto foi escrito enquanto eu ouvia Barbara Bonney cantando a Ave Maria de Schubert, uma canção especial para mim não por questões de devoção, mas sim de memória. Eu cursei a maior parte de meu Ensino Fundamental e Médio no período da tarde, quando largava ouvia o auto-falante de alguém, sempre as seis da tarde tocando essa música. Essa música embalou meu entardecer por anos e o entardecer segue sendo minha hora favorita do dia.

E viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça.
(Apocalipse 12:1)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Era uma vez uma turma que dava muita dor de cabeça...


Era uma vez uma turma que dava muita dor de cabeça, cheia de energia costumava tirar a professora do sério quase todos os dias.

Era um tal de "fulando vai para a direção agora!", "sicrano para com isso!", "meu filho o que é isso?" e muitas coisas do gênero...

Mas, o tempo foi passando... passandooo... Um ano e depois o outro e mais outro... e as dificuldades foram dando lugar aos sorrisos, as muitas discussões acaloradas, aos debates constantes, ao aprendizado... revisões... provas só por formalidade, afinal aprendizado a gente vê no cotidiano e não em uma folha de papel.

Construímos aos trancos e barrancos muitos momentos de felicidade enquanto falávamos de história, animes, filmes, absurdos, como egípcios brancos, imperialismo, evolucionismo cientifico, e coisas do gênero.

Foi uma linda experiencia... As vezes eu morria de amor, as vezes tinha vontade de sair correndo... As vezes conseguia ir longe, as vezes não saia do canto por longos dias... Faltou China e Oceania no nosso cronograma, sobrou bons papos, diálogos incríveis... crescimento conjunto.

Reencontrei o prazer de exercer meu oficio com o 6º B de 2014, que virou 7º B em 2015 e 8º B em 2016! Nem preciso dizer o quanto amo esses peraltas maravilhosos!


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Ainda há coração

É engraçada essa coisa chamada vida adulta. Ao longo dela deixamos coisas e mais coisas para trás e chegamos a ter certeza, jurar de pé junto, o quanto tudo que ficou para trás por nossa livre e espontânea vontade não tem mais a minima importância...

Porém, em um susto, quando menos esperamos, em um movimento inesperado do vento, do rosto, da página, do clique descobrimos absurdados de espanto o quanto nos enganamos. Como canta o Alceu Valença, "a gente se ilude dizendo já não há mais coração".

Atualmente a música Coração Bobo tem embalado vários momentos da minha vida. A constatação do obvio contida em sua letra misturada com os sons da orquestra e da voz do Alceu me dão uma sensação de alivio e ainda me fazer mexer a cabeça hahaha \o/ 


sábado, 3 de setembro de 2016

Meus 2 irmãos mais novos!

A vida me deu irmãos. Irmãos consanguíneos, de afinidades, de sonhos, de ideias, de coração. E sou em geral grata por essas criaturas que vez ou outra aparecem para compartilhar cargas e alegrias, partilhar o pão e caminhar comigo por lugares claros e escuros.

Mas entre todos os mais novos tem um lugar especial. Talvez por ter me tornado irmã mais velha de alguém há 28 anos atrás ter me trazido uma estranha sensação de conforto diante da vida, talvez por eles serem os mais próximos fisicamente, talvez porque tenhamos sempre partilhado tanto sorrisos, farpas e intimidades entre nós. 

Ou simplesmente por eles serem motivo de um orgulho besta que aflora da minha alma como a vegetação da caatinga depois de qualquer chuva. Junior e Renato são implicantes, chatos, cabulosos, me tiraram do sério mais vezes do que consigo contar e, apesar de historiadora, sou boa de conta. No entanto, por Deus, como não morrer de amor?!?!?

Júnior, Eu, Renato na formatura dos dois
Lembro bem como cada um entrou na minha vida. Junior há 28 anos atrás em um manhã de sol com direito a céu azul e nuvens brancas. Renato em tarde igualmente quente, no meio de uma feira de ciências há 15 atrás. Junior no primeiro encontro eu já soube que seria meu irmão, Voinha me disse com todas as letras necessárias. Renato eu descobrir na convivência quase diária que a amizade construída entre ele e Junior criou.

Independente da forma como essas irmandades foram descobertas eu tenho a sorte de poder dizer que elas tem sido ao longo dos anos uma fonte de conforto, alegria, brigas e entendimentos. Esses dois são aquele tipo de pessoa esquisita, com ideias fora do comum, forte talento artístico e capazes de fazer uma conversa corriqueira ficar muito viajada. São capazes de enfrentar obstáculos imensos sem perder a dignidade. Construir na convivência diária demonstrações de amor sem tamanho.

As fotos que ilustram o post foram tiradas no dia da formatura dos dois, porque insatisfeitos em passar parte do Ensino Fundamental e todo Ensino Médio juntos os dois resolveram cursar o mesmo curso na mesma universidade e turma. Aliás, os dois cursaram História no curso noturno na Universidade de Pernambuco, sem jamais repetir uma disciplina, trabalhando no horário oposto ao do curso e ainda ser tornar voluntário em um cursinho pré-ENEM gratuito voltado para alunos e ex-alunos de escolas públicas.

Apesar da graduação em História ter fornecido muita lenha para ser queimada nas discussões infinitas das quais ninguém queria sair como o errado e todo mundo queria esta eternamente certo. Vê os dois portando o diploma de GRADUAÇÃO PLENA EM HISTÓRIA foi um dos momentos mais felizes da minha vida.

Admitamos, meu orgulho e felicidade são justificáveis em dobro quantas irmãs podem dizer que seus irmãos mais novos seguiram seus passos???? cof cof cof... Eu posso \o/

Por fim, como já está ficando feio essa exibição exagerada de afeto, sendo hoje aniversário de vinte oito anos de Junior é também o aniversário do dia no qual me tornei irmã mais velha e a experiencia de ser irmã mais velha é um dos elementos mais fortes e centrais da formação do meu caráter e da forma como enfrento e entendo o mundo e pela primeira vez desde que Renato se tornou meu irmão esse dia se passa sem que ele esteja nesse mundo.

É muito ruim dormir e acordar em um mundo no qual alguém tão próximo não está mais presente. Ninguém se prepara psicologicamente para perder um irmão mais novo. Não está nas letras normais do contrato de existência o perigo iminente de ter a convivência com essas criaturas que acompanhamos crescer irem embora para o outro lado da vida. Ainda não sei me equilibrar muito bem nesse mundo tão vazio dos sorrisos, implicâncias e trejeitos de Renato.

Toda vida temos em relação aos nossos irmãos um estranho sentimento de posse, eles são nossos para tudo nessa vida e pela vida toda. Não da para doar, vender, trocar ou alugar caso ele te irrite, cutuque, incomode, deboche, acorde você de madrugada, pegue seus livros emprestados e devolvam amassados ou partam para o outro lado da vida repentinamente. Não existem ex-filhos, ex-mães, ex-pais e ex-irmãos!

Para sempre terei dois irmãos mais novos. Para sempre terei Junior, Renato e Rafaela como irmãos caçulas! Para sempre terei orgulho besta da trajetória e das conquistas deles! Não existe e não vai existir ex-irmão ou ex-irmã! Irmão é para sempre! E eu creio que do outro lado da eternidade vamos nos encontrar novamente e haverá sorrisos, abraços, beijos, implicâncias e tudo o mais! Renato, você é para sempre meu irmão! Estou vivendo com muitas saudades!

sábado, 20 de agosto de 2016

Boiar...


Não sei se ainda tem alguém aqui, já faz uns bons dois meses que não posto nada. Mas, preciso quebrar esse jejum para deixar registrado que o hiato entre outras coisas se deve ao fato de todos os computadores da casa terem pifado ao mesmo tempo e demorei uns dias para encontrar uma uma possibilidade viável para a compra do aparelho novo.

Muita coisa aconteceu nesse tempo sem escrita, tenho a impressão de ter vivido umas três vidas inteiras e não ser mais a mesma. Claro, pretendo escrever sobre tudo isso muito em breve. No entanto, como nem toda pretensão se concretiza nessa Terra, não ouso prometer nada nem mesmo a mim, mas acredito na possibilidade desse blog voltar a respirar.

Enquanto eu não escrevia, a vida se tornou dolorosa além daquilo que eu considerava possível. Nos termos do contrato de uso desse corpo e dessa vida não lembro de ter lido algo sobre a possibilidade da convivência com uma dor tão ruim de carregar quanto essa que habita em mim. Devia ser ilegal algo assim acontecer as pessoas. Todavia não só é perfeitamente legal como corriqueiro, cada vez que conto sobre as agulhas que me perfuram o coração as pessoas me respondem contando de uma aflição próxima, igual ou, absurdo dos absurdos, infinitamente maior que a minha.

Aprendi recentemente a boiar sobre a água e confesso que ultimamente ando aplicando esse conceito a vida. Fecho os olhos, estico o corpo, respiro fundo e permaneço na superfície da água me deixando levar pelo sabor da corrente na tentativa de recobrar as forças... Agora não, mas muito em breve vou abrir os olhos encarar o azul do céu e começar a bater braços e pernas tomando novamente o curso da minha vida.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

30 anos e ainda quero ser Sindbad...


Sinbad foi uma ícone da minha infância, símbolo de liberdade e aventura ele era tudo o que eu queria ser ser: naufrago, viajante, navegante, desbravador de mundos desconhecidos!

Em suas viagens ele se mete em mil e uma confusões, aporta em uma ilha que na verdade é uma baleia, acende uma fogueira perde tudo... Ganha tudo no próximo porto... Cavalga em cavalos feitos de minerais preciosos, encontra cidades incríveis... Ganha tudo... Perde tudo... Cai em um ninho estranho, testemunha a morte e nascimento da Fênix... Voa, nada... ganha... perde... Aventura... Desbrava.... 

Quando eu lia o livro eu era Simbad, Sindbad, quando eu terminava queria ser e então voltava a ler... Voraz, desorganizada, pouco cuidadosa o livro derreteu em minhas mãos com os anos e recentemente adquiri uma edição nova, brilhante... mas ler essa edição me trás a sensação de sempre.

Hoje completo 30 anos no dia 30, um evento único, não podia deixar de tirar um pouco das teias de aranha desse blog e registrar o fato absurdo de que aos 30 anos ainda quero ser Sindbad, ainda quero acampar numa ilha que é uma baleia, cavalgar cavalos misticos, encontrar cidades encantadas, ver a Fênix morrer e renascer... voar... perder... ganhar tudo de novo e no fim não terminar... no fim sentar e contar minhas histórias... Eternizar minha vida em letras.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Show de Horrores, Teatro dos Absurdos!

Só queria mesmo registrar o quando contemplei absurdada a votação de ontem pela continuidade do processo do impeachment da presidenta Dilma. Em meus quase 30 anos nunca vi tanta fanfarronice, me pergunto se as pessoas de 40, 50, 60 já viram algo igual!

Nossos deputados deram um show de ridículo público, pareciam órfãos do "Xou da Xuxa" ansiosos por aproveitar seus segundos diante da câmera para mandar beijo "Para o meu pai, minha mãe e para você Xuxa", sem consciência alguma de limites e educação. Jamais pensei ser possível dizer isso, porém é fato, nossos deputados me fazem ressignificar minhas opiniões acerca dos 6º anos e sua falta de disciplina, paciência de ouvir o outro e zueira sem fim.

Perto dos deputados brasileiros os 6º anos são santificados, pode beatificar, afinal qualquer bagunça generalizada criada por eles tem o atenuante de serem pessoas com pouco mais de uma década de vida, o que nossos deputados tem como atenuante? As 1, 2, 3 e até 4 décadas de mandato anunciadas por eles mesmos ao microfone ontem? Aliás, me pego pensando se legar ao PT a responsabilidade ultima do afogamento do Brasil em uma crise politica e moral é coerente com aquela realidade transmitida nas TVs abertas do país.

Pela dialética, clareza de papeis, comprometimento com os assuntos públicos, lisura e seriedade demostrada publicamente ontem por nossos deputados, as pessoas que vão as ruas em prol do impeachment realmente acham que o problema máximo e ultimo do Brasil é a atual presidente? Seria ela uma monarca absolutista a ser deposta uma vez que seu mandato é vitalício e todo poder e decisões a respeito de assuntos públicos emanam dela?!?!?

É verdade mesmo que as pessoas ciosas por lisura, honestidade, clareza de papel no serviço público e defesa de um Estado Democrático por Direito saíram as ruas para comemorar o Sim dado por aqueles senhores diante de um personagem como Eduardo Cunha??? É verdade mesmo que as pessoas esperam que saindo Dilma as coisas melhorarão??? Que depois dela, sairá em efeito domino Temer, Cunha, quem mais tiver de corrupto em Brasilia e a crise moral e politica encontrará por fim seu fim? Alguém acredita mesmo que aqueles fanfarrões despudorados tem interesse em algo além deles mesmos?

E não! Eu nunca fui uma entusiasta do governo do PT, eles não são exemplos de correção e lisura. Lula nunca emergiu como um potencial salvador da pátria e Dilma, apesar da ausência gritante de provas diretas contra ela até a manhã do dia 18 de Abril de 2016, pode muito bem não ser santa. Tenho consciência disso, esse blog não é piquete de defesa de políticos. Mas, sendo um caderno de notas e impressões, não pode deixar de conter um registro meus sentimentos hoje.

Bem, vou ficando por aqui, minha ressaca moral não conhece limites e para quem só queria registrar seu absurdamento já escrevi demais e o ar da segunda-feira nunca foi tão limpo, vou lá aproveita-lo.


sexta-feira, 25 de março de 2016

Eu e meu blog


Na primeira postagem escrita nesse blog usei os versos de Fernando Pessoa:

"Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada."

Escolhi esse texto pois era meu sentimento em relação aquela página em tons de marrom. Ela seria uma janela e tanto me possibilitaria olhar para o mundo externo a mim quanto mostrar o meu universo interno a quem desejasse olha-lo.

Criei o blog porque estava meio completamente atordoada com o fim de um namoro sério com o rapaz com qual pretendia casar e ter filhos... Eu já imaginava como seria meus filhos... e tudo deu errado... e me vi sozinha e enchi o saco de todos com lamurias e queria me lamuriar mais um pouco e sentia vergonha e vi Renato e Júnior criando um blog e quando eles recuaram sentir ter a minha chance.

E sim, troquei todas as  virgulas do paragrafo acima pelo conectivo "e" para dar carga dramática a confissão. #Loka hahaha

Antes de ter um blog costumava jogar online, quando fui escolher um nome para jogar não quis usar Jacilene, meu nome é muito regional, queria algo clássico... E se era clássico tinha que ser algo vindo da Grécia e se viesse da Grécia tinha que ser Pandora. Também flertei com Perséfone, mas algo me fez recuar e eu só descobrir bem depois o motivo, afinal havia outra pessoa com esse nome que iria se tornar muito central na minha vida. A parte isso, experiência de jogar online foi ótima, talvez por isso carreguei para cada canto da virtualidade esse nickname auspicioso.

Meu primeiro ano de blog, 2008, foi meio silencioso, como em tudo na vida a principio sou arredia. Lia muito, escrevia, mas não publicava. Sentia medo das pessoas lerem. Porém, numa bela noite o medo passou, abri as abas da Caixa e tenho deixado as coisas saírem de forma regular ou irregular, aos borbulhões ou as borbulhinhas, depende da hora, da cor e do cheiro.

Esse blog é um caderno de notas pessoais.
Ele é o maior reflexo do meu mundo particular.
É onde mastigo minha história e faço a digestão de minhas experiências boas e más.
É a continuação do habito infantil de escrever diários.
Ele me colocou em contato com pessoas incríveis que se tornaram centrais em minha vida.
Sou apaixonada pela experiência de escrever nele.
Gostaria de escrever com mais frequência, mas abrir os abas da Caixa nem sempre é simples para as Pandoras da vida.
Eu lamento!
Mas estou tentando!

Obrigada a todos e todas que passam por aqui, leem, escrevem algum comentário... Me escutam e falam comigo. Minha vida seria bem menos interessante sem você.

Essa postagem faz parte do "1º Concurso Cultural: Eu e Meu Blog" proposto pela Mi F. Colmán.


segunda-feira, 14 de março de 2016

Hamlet: príncipe da Dinamarca

Era uma vez uma pessoa mergulhada em um momento de total bad vibe. Ai, passeando pela floresta do alheamento ela decide fazer algo? Mas, o que seria esse algo?

Passear no parque?
Assisti uma comédia no cinema?
Ir a praia com as amigas?
Nãooooooooooooooooooooooo! Nada disso! Isso tudo não convém!
Ela vai ler uma das tragédias mais famosas dos últimos cinco séculos!


Falando sério, meu desejo de ler "Hamlet: príncipe da Dinamarca" não é recente. Essa edição chegou até mim em 2011 através de uma brincadeira de troca-troca de livros entre blogueiros e quando eu o o Alexandre do #DoQueEuLeio começamos a falar sobre ler algo de Shakespeare foi só unir a sede a vontade de beber.

Apesar de ser uma tragédia, não achei o texto pesado e o final é tão demasiadamente trágico que chega a ser cômico. Varias vezes me coloquei no lugar de uma plateia do século XVI olhando o desenrolar dessa trama e pensando em escanda-los públicos e escondidos das famílias reais europeias e rindo sozinha de mim para mim mesma no meio dos monólogos angustiados e delirantes do Príncipe Hamlet.

Como o titulo do livro anuncia em "Hamlet: príncipe da Dinamarca", Shakespeare nos conta a história de um príncipe melancólico divido a perda precoce do pai que vê sua mãe desposa seu tio sem nem mesmo ter passado o período do luto. Como se sua melancolia revoltada não fosse suficiente o fantasma de seu pai lhe aparece anunciando uma traição e clamando por vingança.


Como disse Horácio, amigo do Hamlet: "Não sei, mas há algo de pobre no Reino da Dinamarca." (p. 26) e para Hamlet cabe a ele colocar essa podridão em evidência e encontrar para ela um vingança digna de um rei cuja coroa foi indignamente usurpada. Para tanto nosso herói usa o artificio de "da uma de louco", o problema é que chegar a conclusão de que "um homem pode sorrir, sorrir e ser um celerado" não fez nenhum bem a ele. Sua loucura fictícia conduz ele a loucuras concretas, macula o amor dele pela jovem Ofélia intoxicando-a com uma loucura real, constrói uma trilha de sangue e, como o gênero da peça anuncia, tragédia.

Apesar do fim arrasador e de realmente ter tido trabalho com a tradução rebuscada de Mario Fondelli e formatação do texto da coleção "Clássico Econômicos Newton" eu adorei a leitura. Furiosamente anotei várias citações das perolas sobre comportamento, sociedade, cultura e politica que se espalham sobre o texto de shakespeariano.

Muitas vezes me peguei pensando o quanto foi capcioso escrever, produzir e encenar em um mundo no qual os reis reinavam por “direito divino” uma história na qual a família real era uma verdadeira celerada, fadada ao fracasso por manchas de envenenamento, incesto e traições. Se, nas palavras do próprio autor "um pingo de mal contamina a substancia mais pura" (p. 25), imagine essa quantidade gigantesca de maledicências e crueldades em uma família que advogava para si o titulo de sagrada?

E sim, o autor conhecia muito bem o poder dos atores, como eles influenciam a opinião publica e podem ajudar ou prejudicar caso queiram ou precisem. O próprio Hamlet afirmou: "... os atores são como que o compendio e a crônica do nosso tempo e mais vale que vós tenhais um epitáfio ruim depois de morto do que serdes por eles escarnecidos em vida." (p. 45). Essa passagem é quase uma ameaça, não por acaso os políticos brasileiros proíbem os humoristas de zuar com eles em época de eleição na TV aberta.

Em síntese, não é sem motivos a popularidade da obra de Shakespeare e os muitos estudos sobre ela. Trata-se de um texto rico, com potencial para a reflexão e, mesmo na pior tragédia, com uma dose de comédia. Afinal como não ri diante do dialogo dos coveiros ou do espetáculo de ver um fidalgo e um príncipe se engalfinhando em cima de um caixão diante do Rei e da Rainha?

Apesar da dificuldade com a tradução e a formatação do texto, gostei muito da experiencia de ler Shekespeare. Quero ler muito mais dele, aliás, quero ler TUDO dele.

Ah, "Hamlet: príncipe da Dinamarca contem o monologo mais famoso de todos os tempos, o qual senti necessidade existencial de transcrever por sua genialidade e impacto reflexivo.
"Ser ou não ser... Eis o problema. Será mais nobre suportar as pedradas e as flechadas de uma fortuna cruel, ou pegar em armas contra um mundo de sofrimentos e, resistindo, acabar com eles? Morrer, dormir, nada mais, e com o sono dizer que demos cabo da aflição no coração e das demais enfermidades naturais da carne: consumpção a ser desejada como graça. Morrer, dormir. Dormir? Sonhar, talvez, é este o ponto que nos detém, é a duvida que prolonga por tão largo tempo a vida dos infelizes. Pois quem quereria suportar o chicote e as injúrias do tempo, as injustiças do tirano, as afrontas do orgulhoso, as torturas do amor não correspondido, as demoras da justiça, as insolências do poderoso, os pontapés que o mérito paciente recebe dos indignos, quando ele mesmo poderia alcançar a paz com a mera ajuda da ponta de um punhal? Quem quereria suar e praguejar sob o fardo de uma vida ingrata, não fosse pelo receio das terras incógnitas do além, país do qual ninguém jamais voltou? Eis o que estorva a vontade e nos decide a suportar os males que sofremos, com medo de enfrentarmos outros que não conhecemos. Eis por que as cores vivas da resolução desmaiam no clarão indefinido do pensamento e os projetos de grande alcance e momento perdem o rumo, voltando ao atoleiro da imaginação. Mas... silêncio! Agora a bela Ofélia se aproxima - Ninfa, lembra-te dos meus pecados nas tuas orações." (Shakespeare, "Hamlet: o príncipe da Dinamarca, pg. 48).

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Confissões de ausente...

Hoje pela manhã fui enquadrada pela minha irmã caçula, a personificação intransigente e folgada do meu superego. Segundo ela tenho registrado nas ultimas semanas alto índice de ausência de mim mesma, sendo o fato de que passei horas sentada no sofá olhando para o nada uma evidencia marcante disso.

Honestamente não lembro de ter passado horas olhando para o nada, disse a ela que na verdade estava aproveitando o ventinho do ventilador... Ao que ela respondeu: "Jaci, o ventilador estava desligado!". Minha mãe atestou que o fato ocorreu. E dois dos meus amigos mais próximos endossaram que ando ausente.

Sinceramente, eu não ando ausente, eu ando com sono... Já disse algumas vezes aqui: "Se eu fosse a Bella Adormecida espetaria novamente o dedo na roca de fiar e dormiria mais cem anos.". Acordar é um desafio diário, como sempre.

Mas, admito a existência de alguns casos e situações causadoras de incômodos no meu atual momento. Duas pessoas queridas se foram (o pai de minha amiga e um professor querido) e cada vez mais eu sinto o vazio da ausência de sonhos e objetivos se alastrar no meio da frustração do momento presente.

Realizei muitos sonhos nos últimos 10 anos, mas me sinto frustrada ao constatar onde meus sonhos me levaram. Olho para meu momento presente e penso: "É isso mesmo?".

Não é que não ame a docência, o ensino de história é uma arte instigante. Não é que não ame a educação infantil, trabalhar com a pequena infância é uma experiencia especial e única... não é que não ame os blogs... ou morar com minha família aos 29 anos...

Não é isso,  mas as vezes olho ao redor e sinto que a realização dos meus sonhos não me levou muito longe. E nesses momentos me sinto intimidada e desencorajada a sonhar. Tenho andado sem sonhos nos últimos tempos. Pela primeira vez na vida não sei o que fazer ou em qual desafio me lançar ou onde colocar minhas forças e energias.

Pior: não me sinto encorajada por mim mesma a fazer isso!

Outro dia liguei a televisão ao acasa durante a tarde e uma cena de novela chamou minha atenção. Nela uma mulher indiana conversava com a filha e dizia a ela: "A vida é um grande mercado onde a gente paga o preço das coisas que escolheu viver.". Me peguei fazendo o escrutínio de minhas escolhas nos últimos 10 anos para saber qual delas custou esse momento atual... E me sinto angustiada e culpada em uma dose sem tamanho de tão imensa.

Sinto um vazio enorme nesse momento... Não sei muito bem para onde ir e sinto que meus amigos já se fartaram de me ouvir... Ou sou eu que não sinto mais vontade de contar? Sinto um déjà-vu, parece aquela vez há quase oito anos atrás quando resolvi fazer um blog para escrever sobre as coisas a respeito das quais eu não queria mais falar, mas não podia calar.

Se esse post pareceu confuso até aqui então realmente voltamo ao ponto no qual estávamos em 2008, mas sem "O eu profundo e os outros eus", afinal a Vaneza encaixotou ele e deixou em algum lugar , o qual não lembra e só Deus sabe quando vai tira-lo de lá. Um filho pequeno cria necessidade urgentes capazes de tornar coisas como um velho livro de poesia irrelevante. Eu entendo, só me lembrem de ter mais prudência com empréstimos de livros nos próximos anos.

Gostaria de ser o tipo que vive um dia de cada vez, sem muitos objetivos claros, um dos amigos com o qual compartilhei esse tipo de angústia me disse: "Não vejo problema em viver sem um objetivo. Eu vivo assim e to de boa, quando aparece uma oportunidade é só  agarrar." Até gostei da ideia, mas tenho a impressão que tal pressuposto não foi feito para mim e me pego analisando possibilidades.

Uma amiga me disse: "Faça coisas diferente e você viverá coisas diferentes.". Tenho pensado muito nisso também, analisado as possibilidades, listando coisas não feitas e possíveis: curso, mudança de habito e rotina, investimentos novos de tempo e energia. Só me falta a coragem de transformar essas possibilidades em objetivos/sonhos/desejos.

Não lembro de durante as ultimas semanas ter ficado parada olhando o vazio. Honestamente eu estava mesmo é me esforçando para acordar na hora e ser pontual no trabalho, dar minhas aulas corretamente e envolver meus alunos, ler o máximo possível e fazer minhas refeições. Porém, se realmente fiz isso, é quase certo ter estado envolta nas questões desabafadas nesse texto.

Sentei e escrevi ele na tentativa de encontrar soluções, afinal escrever sempre me ajudou em momentos de crise... Escrevi como forma de lançar à Coragem um sinal de fumaça: "Amiga, estou aqui, venha me visitar. Preciso de você com urgência.".

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Os 10 melhores livros de 2015.2

Eu sei, esse post está para lá de atrasado, mas é questão de honra! Preciso levar esse empreendimento a cabo. Seguindo a tradição lançada pelo Luciano do .Livro, companheiro de longa data de blogosfera, costumo fazer 2 listas dos melhores livros do ano. Uma no primeiro semestre e outra no segundo. Esse ano o Luciano só fez duas, a do 1º Semestre de 2015 e a geral (confira no link).


Pensei em fazer como ele, mas adoro essa tradição, amo a experiencia de olhar minha lista de livros lidos e ponderar sobre as leituras mais significativas, tirar eles da estante e escrever um pouco sobre cada um, então resolvi fazer o top 10 com as menções honrosas e tudo o mais. Lembrando que, os livros estão em ordem de leitura e não de preferencia.

Então vamos aos livros:


1. "Como Ficar Podre de Rico na Ásia Emergente de Mohsin Hamid: irônico, mordaz e muito honesto Moshin Hamid nos apresenta uma cidade da Ásia cuja realidade politica e social se assemelha muito a das cidades brasileiras. O livro pega emprestado a formula dos manuais de alto ajuda e do gênial Douglas Adans para contar como alguém pobre pode ascender socialmente no meio da lama social da Ásia Emergente e oferece um rico panorama cultural, social e econômico. O livro é lindo e mordaz.


2. "O Discurso Faça Boa Arte de Neil Gaiman: Era uma vez uma menina que foi ao cinema, passou numa banca, viu esse livro por R$ 9,90, pegou o elevador, subiu, chegou na fila do ingresso... deu meia volta e fim. Gaiman é um autor maravilhoso, foi uma gloriosa tarde de leitura regada a chá gelado e torta de limão.


3. "Turma da Mônica: Lições" de Vitor Cafaggi, Lu Cafaggi. Me tornei fã dos irmãos Cafaggi, Lu e Vitor são dois românticos, com um lirismo nostálgico na alma. Em "Lições" as crianças passam por difíceis situações, comentem um erro, são separadas e precisam enfrentar desafios novos e vencer seus bichos e medos. Não da para não se emocionar.


4. "Sandman, Edição Definitiva" Neil Gaiman: tenho a impressão que vivi mais de uma vida enquanto lia Sandman. Comprei o volume 1 em minha primeira loucura do décimo, a vista, abrindo mão de roupa ou sapato novo e depois fui colecionando ao longo do tempo. Chegar ao fim dessa história me deixa nostálgica e com a sensação de ter chegado ao fim de uma época. Eu mudei! E pretendo em breve começar tudo tudo de novo.


5. "Mulheres: Retratos de Respeito, Amor-próprio, Direitos e Dignidade" de Carol Rossetti. Já tinha tido contato com o trabalho da Carol Rossetti através das redes sociais. Seus desenhos e reflexões são fonte de apoio e força a toda mulher que deseja apenas ser o que é sem limites. Foi magico ter seu livro em mãos, ele não é um dos melhores de 2015, é um dos melhores da vida. Fiz resenha para ele no #DoQueEuLeio


6. "300 de Esparta" de Frank Miller. Lembro como ontem como foi que fisguei o 6º ano mais caótico do multiverso e tornei ele "meu"... Só de lembrar das minhas crianças que agora não são mais tão crianças, pois todos cresceram rápido demais e me superaram em tamanho, me vem um sorriso no rosto. Foi o filme "300" que me ajudou quando precisei. Quem quiser me julgar por ter usado esse meio com eles julgue, mas começamos em guerra e agora estamos falando em "Iluminismo" sentado em circulo, cada um falando na sua vez... Eu tinha que ter esse livro na estante, eu tinha que homenageá-lo.


7. "Penadinho: Vida" de Paulo Crumbim, Cristina Eiko: Os Graphics MSP não mereciam citações, eles mereciam um post só para eles, eu sei! São sem duvida uma das melhores coisas que tenho em minha estante. Como irmã de uma criança morta 9 meses antes de meu nascimento foi uma criança fascinada por histórias de fantasminhas, Penadinho foi um dos meus personagens favoritos e Eiko e Crumbim honraram a trajetória e o universo dele construindo uma obra de arte cuja leitura foi um deleite.


8. "Marina" de Carlos Ruiz Zafón, simplesmente um dos melhores livros da vida. Redondo, cheio de referencias a livros que marcaram a minha trajetória como leitora, com uma história envolvente e cheia de mistérios é daqueles livros para ler e reler. Fiz "resenha" para ele no Blog Elaine Gaspareto.


9. "Criaturas da Noite" de Neil Gaiman & Michael Zulli: bem, todos sabem o quanto amo a narrativa do Gaiman e sua imaginação que mistura fantasia e realidade de forma lenta e embalante. Acrescente a isso o traço elegante de Michael Zulli e você terá uma obra de arte. Aquele tipo de livro que a gente tem vontade de abraçar.


10. "Segredos de Uma Noite de Verão", de Lisa Kleypas, de todas as autoras de romance histórico açucarado Kleypas é minha favorita. Saldei com alegria essa nova série dela lançada pela Arqueiro. Tenho amado, não posso deixa ela de fora dessa lista. Para quem gosta do gênero a mor na certa.

Agora vamos as menções honrosas.



"Onde vivem os monstros" & "O aviso na porta de Rosie" de Maurice Sendak. Esses dois livros são daqueles para crianças de 0 a 100 anos. Estou em estado de amor por Maurice Sendak e periga ser um amor para a vida inteira.


Pronto, agora sim meu 2015 terminou e 2016 começou! Um tanto tardiamente, mas... antes tarde que nunca.

domingo, 3 de janeiro de 2016

"Os miseráveis" de Victor Hugo


Finalmente consegui terminar a leitura de "Os miseráveis". O Alexandre e eu pensamos fazer isso em 2015, mas não conseguimos nem eu e nem ele. Sobrou para 2016 e confesso, fiquei intranquila com isso e dediquei cada momento livre dos últimos 3 dias a Jean Valjean, Cosete, Marius e todos os outros.

Victor Hugo tem uma escrita envolvente, sempre que entrei em seu mundo fui acolhida, envolvida e embalada por ele. Mas, "Os miseráveis", além de ter uma carga dramática pesada, é um calhamaço de mais de mil e quinhentas paginas dividido em cinco volumes cujos términos foram sempre e constantemente marcados por uma bela ressaca literária. E, como se não fosse suficiente, o autor é especialista em pausar a a narrativa de sua fabula nos seus clímax para falar de Filosofia, História, Sociologia, Politica, Religião... Males do século XIX, esperanças para o século XX... e por ai vai.

Tem horas que você se pega lendo páginas e páginas sobre: conventos, questões de salubridade, história dos esgotos de Paris, a Batalha de Waterloo, a composição das revoltas... Isso tudo bem depois do clímax, eu LOUCAAAA para saber o desfecho de uma situação e Hugo nem ai escrevendo páginas e páginas sobre conventos... batalhas... a vida dos moleques em Paris etc... etc... etc...


De certa forma não desgostei dessa formula. Apesar de tornar a leitura do livro mais lenta, a visão do Victor Hugo sobre a sociedade é incrível e profunda. Ele enxergava os males e possibilidade de soluções, tinha um certo furor historiográfico emocionante, uma revolta contra o descaso das autoridades, uma vontade de denunciar os erros, as falhas, as desgraças... colaborar com a construção de um mundo melhor. Ele via a desolação, encontrava formas de solução e gostaria de ver isso aplicado.

Quando a leitura me entediava ou quando o preciosismo dele em descrever cenários e situações me levava as raias da loucura literária eu antevia essa coisa meio visionária dele e nossa, como não respeitar?  Como não prestar atenção a cada palavra? Como pular uma linha? De forma alguma. Esse é um autor que merece ser lido com atenção e calma, respirando fundo e se concentrando.

O fio condutor do livro, o imã para nosso interesse, é a história do querido Jean Valjean, de como ele começou a vida em uma situação de fragilidade social, cometeu um erro, teve uma pena desmedida, se tornou uma pessoa cruel e temível, mas mudou ao ser encontrado por uma pessoa generosa e passou a viver espalhando generosidade por onde passava, nem sempre sendo bem recompensado por isso.

Todas as pessoas que cruzaram o caminho desse homem, direta ou indiretamente, também tiveram suas histórias contadas de maneira mais ou menos minuciosa. O autor foi milimétrico e consciencioso ao tecer a teia da história do Valjean. Ele me fez pensar na verdade contida na expressão: "Todas as pessoas, mesmo aquelas mais ignóbeis possuem uma história".


Poderia escrever ainda muito mais sobre esse livro, porém me encontro sem palavras adicionais. Foi um dos melhores livros da vida, um dos mais marcantes. Estou de ressaca literária. Indico eles a todas as pessoas do mundo. É o tipo de leitura capaz de nos tornar uma pessoa um pouco melhor e mais capaz de olhar com generosidade aqueles que estão em estado de fragilidade social nesse momento.

Não canso de considerar assustador constatar a atualidade da obra de Victor Hugo. Cada vez que eu via o Brasil nas descrições feitas por ele de Paris eu me desesperava um pouco. Sempre digo que vivo em uma distopia, ler um livro escrito há 200 anos atrás e perceber atualidade nas descrições dos problemas sociais e a forma como o poder público lida com ele, dos enfrentamentos com a tropa de choque, ao tratamento da pequena infânciade, me de choque me desespera.

Não me venham dizer que isso se deve a atemporalidade dos clássicos, porque sou historiadora, não acredito nisso. Acredito que obras literárias são produtos da sociedade na qual foram escritas e se o presente tem muito do passado o nome disso é continuidade. Como nós nos permitimos conviver com a miséria? Como tantos de nós assistem passivamente o espetáculo trágico narrado em "Os miseráveis" se repetir? Como as pessoas conseguem chamar de chatos e chatas os incomodados, os que lutam?

Bem, sem mais delongas, gostaria de agradecer a quem me acompanhou nessa tragetória lendo meus posts sobre o tema ou lendo comigo o livro, como a Pedrita do "Mata Hari e 007" e o Alexandre do "#DoQueEuLeio".

Ah, ler o livro só me faz amar mais ainda a adaptação do filme feita no cinema, talvez por isso tenha me dado ao direito de usar imagens dela para ilustrar o post. Também peguei a foto da montagem da peça feita Escola de Dança Luana Zeglin apresentada no dia 14 de dezembro no Teatro Positivo e Curitiba, pois é emblemática.